segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Sobre o texto na Folha de São Paulo.

Na segunda feira, 8 de outubro de 2007, foi publicado um texto meu no Jornal Folha de S. Paulo.
Fiz o texto, a pedido do coordenador de artigos Uirá Machado, que trabalha na Folha. Ele me mandou a carta de Luciano Huck, sobre seu assalto no Jardins.
Coloquei o nome de: Pensamentos de um "correria", , e com minha mente literária e ingênua fiz uma ficção onde o ponto de vista eram dos ladrões. Quando enviei o artigo para ele, que foi escrito em 5 horas, me mostrei preocupado por ser quase um conto, e podia fugir do estilo do espaço Tendências/Debates, mas o texto foi publicado.
Até ai, eu imaginava que não era difícil de entender o que queria passar, mas esqueci de uma coisa que vivo repetindo em minhas palestras, que esse pais tem uma mania de falar muito em analfabetos funcionais, mas um analfabeto num pode funcionar. Ou ele tem interpretação de texto ou não tem, e sobre as centenas de cartas que recebi sobre meu texto de ficção, dá pra ter certeza que interpretação de texto não é o forte desses "leitores".
O texto já dá pra notar no título que é ficcional, assim como fiz o ponto de vista do ladrão, poderia ter feito o retirante nordestino (como fiz em Capão Pecado, meu primeiro livro) poderia ter feito sobre um evangélico (como fiz em Ninguém é inocente em São Paulo) ou qualquer outro personagem que quisesse.
bom, num vou me alongar, se não vão pensar que estou me explicando, e esse comunicado não tem essa finalidade, escrevi aqui no meu Blog pois as pessoas que admiram o meu trabalho e minha história de vida, e pra quem sempre tento ser um bom exemplo, saibam que apesar de todas as críticas, num volto uma vírgula do que escrevi e estou firme e forte na missão.
abaixo o texto publicado no Jornal Folha de S. Paulo.
Pensamentos de um “correria”.Ele me olha, cumprimenta rápido e vai para a padaria. Acordou cedo, tratou de acordar o amigo que vai ser seu garupa e foi tomar café.A mãe já está na padaria também, pedindo dinheiro para alguém para tomar mais uma dose de cachaça, ele finge não vê-la, toma seu café de um gole só e sai pra missão, que é como todos chamam fazer um assalto.Se voltar com algo, seu filho, seus irmãos, sua mãe, sua tia, seu padrasto, todos vão gastar o dinheiro com ele, sem exigir de onde veio, sem nota fiscal, sem gerar impostos.Quando o filho chora de fome moral não vai ajudar.A selva de pedra criou suas leis, vidro escuro para não se ver dentro do carro, cada qual com sua vida, cada qual com seus problemas, sem tempo pra sentimentalismo.O menino no farol não consegue pedir dinheiro, o vidro escuro não deixa mostrar nada.O moto boy tenta se afastar dele, desconfia pois ele está com outro na garupa, lembra das 36 prestações que faltam para quitar a moto, mas tem que arriscar e acelera, só tem 20 minutos para entregar uma correspondência do outro lado da cidade, se atrasar a entrega perde o serviço, se morrer no caminho, amanhã tem outro na vaga.Quando passa pelos dois na moto, percebe que é da sua quebrada, dá um toque no acelerador e sai da reta, sabe que os caras estão pra fazer uma fita.Enquanto isso, muita gente em seus carros, ouvem suas músicas, falam em seus celulares e pensam que estão vivos e num pais legal.Ele anda de vagar entre os carros, o garupa está atento, se a missão falhar, não terá homenagem póstuma, deixará uma família destroçada, porque a sua já é, e não terá uma multidão triste por sua morte. Será apenas mais um coitado com capacete velho e um 38 enferrujado jogado no chão, atrapalhando o trânsito.Teve infância, isso teve, tudo bem que sem nada demais, mas sua mãe o levava ao circo todos os anos, só parou depois que seu novo marido a proibiu de sair de casa, ela começou a beber, a mesma bebida que os programas de televisão mostram nos seus comerciais, só que neles ninguém sofre por beber..Teve educação, a mesma que todos da sua comunidade tiveram, quase nada que sirva para o século 21. A professora passava um monte de coisa na lousa, mas pra que estudar se pela nova lei do governo todo mundo é aprovado?Ainda menino, quando assistia as propagandas, entendia que ou você tem ou você não é nada, sabia que era melhor viver pouco como alguém, do que morrer velho como ninguém.Leu em alguém lugar que São Paulo está ficando indefensável, mas não sabia o que queriam dizer, defesa de quem? Parece assunto de guerra.Não acreditava em heróis, isso não! Nunca gostou do super-homem nem de nenhum desses caras americanos, preferia respeitar os malandros mais velhos que moravam no seu bairro, o exemplo é aquele ali e pronto.Tomava tapa na cara do seu padrasto, tomava tapa na cara dos policiais, mas nunca deu tapa na cara de nenhuma das suas vitimas. Ou matava logo ou saia fora.Era da seguinte opinião, nunca iria num programa de auditório, se humilhar perante milhões de brasileiros, se equilibrando numa tábua para ganhar o suficiente para cobrir as dividas, isso nunca faria, um homem de verdade não pode ser medido por isso.Ele ganhou logo cedo um kit pobreza, mas sempre pensou que apesar de morar perto do lixo, não fazia parte dele, não era lixo.A hora estava se aproximando, tinha um braço ali vacilando. Se perguntava como alguém pode usar no braço, algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada. Quantas pessoas que conheceu, trabalharam a vida inteira, sendo babá de meninos mimados, fazendo a comida deles, cuidando da segurança e limpeza deles e no final ficaram velhas, morreram, e nunca puderam fazer o mesmo por seus filhos.Estava decidido, iria vender o relógio, e ficaria de boa talvez por alguns meses.O cara pra quem venderia, poderia usar o relógio e se sentir como o apresentador feliz que sempre está cercado de mulheres semi nuas em seu programa.Se o assalto não desse certo, talvez cadeira de rodas, prisão ou caixão, não teria como recorrer ao seguro, nem segunda chance.O correria, decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou.No final das contas todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso que é sua vida, e o correria ficou com o relógio.Não vejo motivo pra reclamação, afinal num mundo indefensável até que o rolo foi justo para ambas as partes.

FerrézÉ morador do Capão Redondo, e autor de: Capão Pecado, Manual Prático do ódio, Amanhecer esmeralda e Ninguém é inocente em São Paulo (todos pela objetiva).