quarta-feira, 20 de junho de 2007

LUCRETIA DAVDSONI

Foi poeta: cantou, e o estro em fogo Crestou-lhe o peito, devorou seus dias E a febre ardente desbotou-lhe a fronte Em dores sós, em delirar insano.
Foi poeta: cantou, sonhou: a vidaCanto e sonhos lhe foi. Amor e glóriaCom asas brancas viu sorrindo em vôos.Foi-lhe vida sonhar: e ardentes sonhosA fronte lhe acenderam, lhe estrelaramMágico da existência o firmamento.Cantou, sonhou-amou:: cantos e sonhosEm amor converteu-os. De joelhosEm fundo enlevo ele esperou baixasseAlguma luz do céu, que amor dissesse-
Anjo ou mulher! embora que ele a amaraC'o fogo queimador que o consumiaCom o amor de poeta que o matava! Anjo ou mulher-embora! e em longas preces Noite e dia o esperou-Mísero! Embalde!
Sonhou-amou-cantou: em loucos versosEvaporou a vida absorta em sonhos-E debalde! ninguém chorou-lhe os prantosQue sobre as mortas ilusões já findasPálido derramara-Amou! E um peitoJunto ao seu não ouviu bater consoante C'os amores do seu! Ninguém amou-o E nem as mágoas lhe afogou num beijo!
-E morreu sem amor.-Bateu-lhe embaldeO pobre coração em loucas ânsias.Passou ignoto, solitário e tristeEntre os anjos do amor, só viu-lhe risosEm braços doutros-e invejosa mágoaEssa alheia ventura só lhe trouxe.Nunca a mão dele de uma fronte brancaA alva coroa fez cair da virgem-Jovem, solteiro, sem consórcio d'alma
Entre as rosas da vida-mas nenhuma Nem deu-lhe um riso-nem do moço pálido No imo d'alma guardou uma saudade!
Mas se à terra saudades não deixara Não levou-as também-do peito o orgulho Que ninguém quis amar, ninguém amou. -Foi-lhe quimera o amor, não mais lembrou-o, Tentou-o ao menos. -E que importa um morto? - Doido é quem geme em lagrimar estéril- Quando o luto findou e alegre o baileCorre entre flores no valsar, quem lembra O defunto que é podre no jazigo? -Morrera-lhe o sonhar-por que chorá-lo?
E morreu sem amor! E ele contudoTinha no peito tanto amor e vida! Alma de sonhos, tão ardentes, cheia! E anelante do amor do peito-em outro Em horas ternas efundir em beijos!
E às vezes quando a fronte pela febre Pesada e quente sobre as mãos firmava, Quando esse delirar febril da insônia Em vertigens travava de sua alma, Um negro pensamento lhe passava Como um fuzil no cérebro fervente, E pensava dos loucos no delírio, Na escura treva da vertigem tonta! Temia-a morte não-mas-a loucura.

Nenhum comentário: